Hoje, durante nossa segunda aula de Psicologia Existencial, discutíamos sobre assuntos complicados como liberdade e consciência. Marco Portela, nosso professor, ensinava-nos que a consciência não é um recipiente, um depósito de conteúdos a respeito dos quais pensamos — mas as coisas mesmas a serem pensadas! A consciência é exatamente o que está sendo intencionado em nossa mente, ou o foco para o qual se volta a nossa atenção. Portela também salientou a impossibilidade de não se pensar em nada — afinal, "se estamos conscientes, necessariamente estamos conscientes de alguma coisa". Um pouco inquieta, uma colega argumentou que um dos propósitos da meditação é esvaziar a mente de todo e qualquer pensamento, levando-nos portanto ao encontro do nada. Lembrei-me naquele momento de algumas passagens de um dos livros de Antônio Damásio, O Mistério da Consciência. Segundo Damásio, o self, a sensação de sermos alguém, depende do mapeamento que o cérebro faz de diversas partes do corpo. Sem a representação mental do nosso corpo, e sem portanto a configuração de um "eu", não poderíamos sequer estar conscientes de algo. A meditação, nesse sentido, embora capaz de aquietar a torrente de pensamentos fervilhantes gerada pelo cérebro, não pode fazer com que nossa mente se esvazie completamente. Se assim fosse, deixaríamos de existir — ou, de um modo mais sublime, dormiríamos.Não sei se fui suficientemente claro ao expor esses conhecimentos durante a discussão. Depois de um silêncio geral que durou uns poucos segundos, Portela retomou o assunto conforme sua própria linha de raciocínio, como que desconsiderando o meu argumento. Esse episódio reforçou minha sensação de que meus colegas e a maioria dos meus professores não gostam de neurociência (ou não a entendem). A propósito, estariam eles ainda sendo guiados por uma concepção dualista de homem?
Na verdade, e como salientou John Horgan em seu polêmico livro A Mente Desconhecida (2002), um dos temas mais complexos e controversos das ciências da mente é a consciência. Talvez por isso ele seja um dos meus favoritos, e lamento muito que tenhamos tão poucos recursos financeiros, tecnológicos e motivacionais para estudá-lo.
