segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

A linguagem das emoções: uma resenha

O que são emoções? Elas são universais ou variam significativamente entre culturas? Quais são os papéis das emoções? Podemos controlar o que sentimos? Podemos identificar as emoções dos outros, mesmo quando estão tentando camuflá-las? Essas e outras perguntas são respondidas pelo psicólogo Paul Ekman (2011) em seu livro A Linguagem das Emoções. Com uma linguagem acessível ao grande público, seu trabalho alterna entre dados científicos, experiência própria e especulações. Ao longo do livro, o pesquisador traz ideias, novas e recicladas, que podem modificar a forma como leigos, clínicos e cientistas encaram o comportamento emocional.

Ekman define as emoções como processos, influenciados pelas histórias da espécie e individual, que preparam o organismo para lidar com certos eventos importantes. Quando deflagradas, as emoções alteram a atividade do cérebro, do sistema nervoso autônomo e dos músculos. No âmbito social, as emoções têm a função de comunicar a terceiros sobre o que acontece com o indivíduo emocionado. Quando estamos presenciando, pela face, gestos e/ou voz, uma expressão emocional, temos um indício do que a pessoa emocionada pode fazer ou do que a fez sentir uma emoção. Mas podemos, como frequentemente acontece, estarmos redondamente enganados. Se o choro e o medo podem resultar da culpa pelo que fizemos, podem também ser fruto de uma acusação indefensável e injusta. As aparências enganam, e Ekman alerta-nos sobre o perigo de se cometer o "erro de Otelo".

Convicto sobre uma traição, Otelo julgou que o medo da esposa provava sua culpa. Contudo, Desdêmona, inocente e incapaz de se defender, temia pela morte.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Quando o ateu orou

Fonte: Bule Voador

No decorrer de uma festa, Amanda e eu discutíamos religião. Como acontece quando o assunto é futebol ou política, ninguém queria dar o braço a torcer. Em um momento propício, contudo, decidi fazer uma revelação: “Depois que me tornei ateu, e isso deve fazer uns cinco ou seis anos, houve um momento singular em que me pus a orar. Eram dias difíceis, cheios de tristeza, angústia e desesperança. Não imaginei nada ou ninguém a recorrer… a não ser Deus.” Ao ouvir isso, Amanda imediatamente esbravejou: “É só o negócio apertar, e então vocês mudam prontamente de ideia! No fundo, no fundo, os ateus crêem em Deus!”.

Tal como acontece com os traços de personalidade e a inteligência, o que nos define ateus, agnósticos ou religiosos é essencialmente a frequência com que nos comportamos de formas tais ou quais. Essa frequência pode oscilar à medida que variam as condições que as mantém, e uma variação razoavelmente aguda ou estável pode, com efeito, fazer com que religiosos e ateus virem temporariamente ao avesso. Nos parágrafos seguintes, tentarei brevemente desenvolver a justificativa que dei à minha colega naquela ocasião.

Para Freud, a religião é uma ilusão infantil que permite ao homem lidar com o desamparo.

sábado, 5 de novembro de 2011

Inteligência: capacidade de ser feliz?

Parece haver um consenso de que inteligência é um dos construtos mais polêmicos da psicologia. Mas é também um dos mais caros, sendo eventualmente considerado como a dimensão psicológica mais estudada e estabelecida (Flores-Mendoza, 2010). No entanto, se uma miríade de estudos concebe status especial à sua medida, então calculada e nomeada enquanto fator g ou como QI, outros tantos levantam uma série de críticas. A mais popular delas é a de que não existe a inteligência, mas as inteligências, sendo Daniel Goleman comum e prontamente lembrado por cunhar o termo inteligência emocional. Howard Gardner, um pouco menos modesto, levanta a bandeira das inteligências múltiplas, e o faz ao postular que cada habilidade específica, como os raciocínios numérico, espacial e interpessoal, referem-se a inteligências autônomas, isoladas. Tendo outrora exposto uma alternativa a esse tipo de tese, quero agora desenvolver algumas considerações sobre uma proposição curiosa: a de que a definição de inteligência deve estar vinculada à capacidade de ser feliz.

domingo, 30 de outubro de 2011

Muito além do nosso eu: admirável mundo por vir (Parte 1)

Nicolelis, Aurora e seu braço robótico
Desde que li a obra do neurologista português Antônio Damásio, então responsável pelos rudimentos de como entendo as relações cérebro-comportamento, não ficara tão extasiado com um livro de neurociência até trombar com o Muito além do nosso eu (2011). Nele, o brasileiro Miguel Nicolelis mostra-nos parte do desafio, assumido por ele e sua equipe, de desenvolver robustas interfaces cérebro-máquina (ICMs): sistemas que, por exemplo, permitem a símios, ratos e mesmo seres humanos controlar, por pensamento, computadores ou artefatos robóticos. Em paralelo, o cientista tupiniquim procura tanto desbancar a tese de que o encéfalo é dividido em domínios de processamento especializados como criticar o pressuposto de que o neurônio, e não redes neurais, é a unidade funcional do sistema nervoso. Neste texto, descreverei de forma sucinta o principal experimento narrado em Muito além do nosso eu e quais as prováveis e sonhadas implicações das ICMs. Quanto às discussões teóricas, guardarei-as para um inadiável trabalho posterior (a Parte 2).

domingo, 23 de outubro de 2011

Ciência Espírita

Eles são cientistas. E eles acreditam em espíritos e reencarnação. Agora, estão usando o laboratório para provar que tudo isso não é apenas questão de fé. E dizem que estão conseguindo.

O excerto supracitado é a manchete da Super Interessante deste mês (outubro de 2011). Embora convidativa e exagerada, como costuma ser quase toda capa de revista, a matéria não se limita a relatar anedotas que dão um frio na barriga. Em contraste, os autores (Nogueira e Castro) tiveram o escrúpulo de contar o outro lado da história: o fato de que pesquisas sérias acerca do tema estão apenas começando, bem como, e principalmente, que não há dados empíricos que corroborem a tese de que corpo e mente (ou alma) são entidades de natureza ou substância distinta. Contudo, e se isso for verdade, o que dizer das experiências extracorpóreas que praticantes de meditação, pacientes de enfarte e sobreviventes de acidentes relatam?

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Ciúme: palavras sobre o inato e o aprendido

Os ciumentos sempre olham para tudo com óculos de aumento, os quais engrandecem as coisas pequenas, agigantam os anões, e fazem com que as suspeitas pareçam verdades" (Miguel Cervantes, 1547-1616).


Na manhã de hoje (10 de outubro de 2011), tirei um tempinho para ler algo a respeito do ciúme. Por sorte, ao lançar o termo no Google Acadêmico, topei com o artigo "Contribuições da Psicologia Evolutiva e da Análise do Comportamento acerca do Ciúme" da analista do comportamento Nazaré Costa. Sorte porque, em primeiro lugar, eu gostaria de conhecer um pouco da leitura analítico-comportamental sobre o tema e, em segundo lugar, porque tenho tido interesse em trabalhos que contemplam atributos filogenéticos do comportamento.(1) Pretendo, com este texto, trazer os principais pontos dessas duas abordagens e esboçar um possível e desejável link entre seus respectivos níveis de análise.

sábado, 1 de outubro de 2011

Divulgando a (neuro)ciência

Aproveitando a onda do V Simpósio de Neurociências da UFMG, que ocorreu entre os dias 19 e 24 de setembro, professores e monitores se mobilizaram para receber a comunidade belo-horizontina em uma série de atividades de extensão. A I Semana de Neurociências da UFMG, título que recebeu a mobilização, constituiu de exposições, oficinas, grupos de discussão e visitas organizadas a alguns dos laboratórios da universidade. Como ex-aluno da especialização e monitor, tive o privilégio de conduzir, em companhia da sagaz e simpaticíssima Suzan Ribeiro, uma breve mas divertida apresentação do que é a neuropsicologia. Bem mais do que espectadores, cerca de oitenta alunos do ensino médio tiveram a chance de participar -- perguntando, jogando e discutindo -- de atividades relacionadas a essa emergente ramificação da neurociência. Tudo, é claro, sem perder de vista a proposta interdisciplinar do projeto.

Alunos do ensino médio no laboratório de neuroanatomia.