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sábado, 7 de abril de 2012

Reflexões sobre a páscoa e o ateísmo

Para início de conversa, eu sou ateu. E o que significa isso? Tal como sugere a etimologia da palavra (a, de ausência ou negação, e theos, de deuses), pode-se dizer que eu nego a existência de deuses. Um teísta, pelo contrário, poderia ser definido como alguém que aceita a existência de Deus -- ou, no caso de um politeísta, de deuses. Mas, no meu ponto de vista, não poderíamos parar por aí. Em que, afinal, consiste aceitar ou negar a existência de deuses? Que crenças e condutas básicas caracterizam ateus e religiosos? Após esboçar uma breve resposta a essas questões, tentarei ilustrar como um ateu pode se comportar na celebração da páscoa, época em que os cristãos comemoram a ressurreição de Jesus Cristo. 

A ressurreição (Raffaelino del Garbo, 1510)

domingo, 30 de outubro de 2011

Muito além do nosso eu: admirável mundo por vir

Nicolelis, Aurora e seu braço robótico
Desde que li a obra do neurologista português Antônio Damásio, um livro de neurociência não tinha me deixado tão entusiasmado até eu trombar com o Muito Além do Nosso Eu.(1) Em seu livro, o brasileiro Miguel Nicolelis (2011) mostra-nos parte do desafio, assumido por ele e sua equipe, de desenvolver robustas interfaces cérebro-máquina (ICMs): paradigmas que possibilitam a relação da atividade cerebral com artefatos robóticos ou computacionais. Pacientes neurológicos, deficientes físicos, usuários de tecnologia avançada e até mesmo apreciadores de videogames poderão, em breve, se beneficiar desse tipo de tecnologia. Ao que parece, as ICMs prometem uma revolução na forma como interagimos com o mundo e com nós mesmos. Antes de abordar essas intrigantes conclusões, o cientista tupiniquim dedicou boas páginas de seu livro para falar de Aurora, uma macaquinha simpática que os ajudou a descobrir como se pode realizar muitas façanhas pela força do pensamento. E é por aí que eu vou começar.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Ciúme: palavras sobre o inato e o aprendido

Os ciumentos sempre olham para tudo com óculos de aumento, os quais engrandecem as coisas pequenas, agigantam os anões, e fazem com que as suspeitas pareçam verdades" (Miguel Cervantes, 1547-1616).


Na manhã de hoje (10 de outubro de 2011), tirei um tempinho para ler algo a respeito do ciúme. Por sorte, ao lançar o termo no Google Acadêmico, topei com o artigo "Contribuições da Psicologia Evolutiva e da Análise do Comportamento acerca do Ciúme" da analista do comportamento Nazaré Costa. Sorte porque, em primeiro lugar, eu gostaria de conhecer um pouco da leitura analítico-comportamental sobre o tema e, em segundo lugar, porque tenho tido interesse em trabalhos que contemplam atributos filogenéticos do comportamento.(1) Pretendo, com este texto, trazer os principais pontos dessas duas abordagens e esboçar um possível e desejável link entre seus respectivos níveis de análise.

sábado, 13 de agosto de 2011

Contingências, coincidências e superstições

Às vezes, andando pelo centro de Bom Despacho, minha cidade natal, avistava de longe um amigo ou conhecido. Quando nos aproximávamos, notava que a pessoa que avistara não era quem eu havia imaginado. Isso acontecia com certa regularidade, e o que estava por vir deixava-me com uma pulga atrás da orelha. Alguns minutos após o engano, eu acabava eventualmente encontrando meu conhecido. Impressionado, deixava-me seduzir pela ideia de que aquele equívoco se tratava de premonição (sinal de que algo vai acontecer) ou telepatia (sentir à distância). Era excitante imaginar que podemos ter superpoderes ou estranhas habilidades superdesenvolvidas. Era. Hoje, mais cético e instruído sobre o comportamento humano, tenho nas mangas explicações razoáveis para os eventos que nos convidam à superstição e à pseudociência.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Ambiente(s), determinismo(s) e mal-entendido(s)

A história de diferentes povos seguiu diferentes rumos não por causa de diferenças biológicas entre esses povos, mas por causa de diferenças ambientais (Diamond, 1997). No âmbito do que venho estudando, os povos europeus são mais ricos e menos religiosos não em razão de sua maior inteligência, mas em razão de circunstâncias ambientais diferenciadas que caracterizaram seu percurso histórico.

Esse comentário, que postei antes de ontem (30/07) no meu mural do Facebook, rendeu uma discussão assaz interessante e apimentada. Um grande e velho amigo que tenho tomou-o como alvo de críticas contundentes, colou-o e ridicularizou-o em seu próprio mural e reservou-me conselhos e adjetivos depreciativos. Em vista disso, decidi tecer uma breve explicação do que quis dizer com aquelas palavras, bem como tentar resolver alguns mal-entendidos sobre ambiente(s), história(s) e determinismo(s).

domingo, 3 de julho de 2011

Teísmo e ateísmo: o dilema da naturalidade

ResearchBlogging.orgOs cientistas cognitivistas da religião têm alegado que a religiosidade é natural, isto é, que o conjunto de comportamentos que a caracteriza seria motivado por intuições psicológicas nucleares e naturalmente selecionadas (Bering, 2010). O ateísmo, e a irreligiosidade em geral, parece ser um problema para a chamada tese da naturalidade da religião (TNR). Barrett (2010): "Se a religiosidade é natural, o que explica a presença difundida do ateísmo e do agnosticismo, particularmente nos países europeus?" Temos, diante desse cenário, um impasse na concepção da postura religiosa (ateísmo, agnosticismo e teísmo) em termos de naturalidade.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Hipóteses (prematuras) acerca da Onda Ateísta

Na última terça-feira, dia 14 de junho, marquei presença no simpósio intitulado "Fronteiras entre a Psicologia, a Religião e a Espiritualidade". Esse evento, que aconteceu na Universidade FUMEC, contou com as apresentações de um hinduísta, um budista e um evangélico, cada qual propondo como seus valores, pressupostos e práticas podem contribuir para a Psicologia -- sobretudo na área da psicoterapia. Ao final, no espaço para perguntas, pronunciei-me acerca de uma questão que vive a me perseguir: "O que explica o aumento exponencial de ateus, que compunham um grupo minoritário há até bem pouco tempo, nos dias atuais? A propósito, quais seriam as implicações individuais e sociais do ceticismo em relação à religiosidade?"

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Efeito Flynn: a multiplicação social da inteligência

Após ter apresentado as duas medidas de inteligência tradicionais, QI e fator g, é tempo de trazer ao palco um tema intrigante: o efeito Flynn. Esse fenômeno diz respeito aos ganhos exponenciais de QI ao longo das gerações. Na Argentina, por exemplo, constatou-se, no espaço de apenas uma geração (30 anos), um aumento de 18 pontos (pouco mais que um desvio padrão) no desempenho médio das pessoas no teste Matrizes Progressivas de Raven. O escore total de crianças e adultos nas escalas Wechsler (WISC e WAIS-III, respectivamente) também vem inflacionando. O que está acontecendo, afinal? Estamos, com o passar das gerações, ficando mais inteligentes? Quais variáveis explicam esse fenômeno? Tentarei, com base nas ideias de James R. Flynn (2006, 2009), tecer respostas razoáveis para essas perguntas.

quinta-feira, 11 de março de 2010

AVATAR: à nossa imagem e semelhança

Vertiginosos cenários tridimensionais, ficção científica e um belo mundo de plantas e bichos nunca antes vistos — mesmo que virtuais — são algumas das inebriantes atrações de AVATAR, uma das maiores produções hollywoodianas. Mas, e apesar das críticas, sua trama agitou-me um tanto mais. Baseado nos temas que vinha estudando atualmente, quais sejam, natureza humana e moralidade, teci uma análise de alguns paradoxos morais do filme e, em paralelo, inferi por que a maioria de nós comemorou a derrota humana.