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domingo, 23 de junho de 2013

Por que você é ateu?

Enquanto fazíamos uma rápida viagem, um simpático estudante de Teologia quis entender por que eu sou ateu. Como costuma acontecer, a resposta "Não há evidências que apoiem a hipótese de que Deus existe" não foi satisfatória, e ele acabou levantando outras curiosas mas complicadíssimas questões. Ao chegarmos em Belo Horizonte, fiquei com a impressão de que eu não consegui amarrar bem minhas ideias, e, por isso, resolvi retomar suas seguintes perguntas: "E o que criou tudo?", "E o que explica por que você veio a nascer, ou por que logo aquele espermatozoide fecundou o óvulo?" e "Então, qual é o sentido da vida?". Procurei demonstrar por que nenhuma delas nos leva logicamente a Deus, arriscando-me a explicar que tipos de erro argumentativos cometem os religiosos. Para começar, achei que seria importante definirmos os termos "religiosidade" e "ateísmo". Para finalizar, esbocei uma resposta provisória para a questão que ecoa em minha mente há quase três meses.

sábado, 7 de abril de 2012

Reflexões sobre a páscoa e o ateísmo

Para início de conversa, eu sou ateu. E o que significa isso? Tal como sugere a etimologia da palavra (a, de ausência ou negação, e theos, de deuses), pode-se dizer que eu nego a existência de deuses. Um teísta, pelo contrário, poderia ser definido como alguém que aceita a existência de Deus -- ou, no caso de um politeísta, de deuses. Mas, no meu ponto de vista, não poderíamos parar por aí. Em que, afinal, consiste aceitar ou negar a existência de deuses? Que crenças e condutas básicas caracterizam ateus e religiosos? Após esboçar uma breve resposta a essas questões, tentarei ilustrar como um ateu pode se comportar na celebração da páscoa, época em que os cristãos comemoram a ressurreição de Jesus Cristo. 

A ressurreição (Raffaelino del Garbo, 1510)

terça-feira, 27 de março de 2012

O Eu é uma ilusão?

"Você é uma ilusão" foi a convidativa manchete de uma revista, a Galileu, que eu encontrei por acaso há alguns dias atrás. A edição é antiga, de outubro de 2002, mas o assunto não poderia ser mais atual. A natureza e as dimensões do self, ou de um Eu que dá luz à consciência, é um daqueles tópicos que encontram muita dificuldade em despertar consenso na comunidade – sobretudo quando entrelaçamos ciência, filosofia e religião. Nós existimos enquanto entidades imateriais, independentes do corpo e espectadoras do mundo? Ou, trazendo os pés para o chão, não passamos de uma parte especial deste Universo material? Basicamente, o propósito daquela matéria foi propagar a boa nova de que algumas ideias budistas sobre o self vêm encontrando respaldo nas ciências da mente.


quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Quando o ateu orou



No decorrer de uma festa, Amanda e eu discutíamos religião. Como acontece quando o assunto é futebol ou política, ninguém queria dar o braço a torcer. Em um momento propício, contudo, decidi fazer uma revelação: “Depois que me tornei ateu, e isso deve fazer uns cinco ou seis anos, houve um momento singular em que me pus a orar. Eram dias difíceis, cheios de tristeza, angústia e desesperança. Não imaginei nada ou ninguém a recorrer… a não ser Deus.” Ao ouvir isso, Amanda imediatamente esbravejou: “É só o negócio apertar, e então vocês mudam prontamente de ideia! No fundo, no fundo, os ateus crêem em Deus!”.

Tal como acontece com os traços de personalidade e a inteligência, o que nos define ateus, agnósticos ou religiosos é essencialmente a frequência com que nos comportamos de formas tais ou quais. Essa frequência pode oscilar à medida que variam as condições que as mantém, e uma variação razoavelmente aguda ou estável pode, com efeito, fazer com que religiosos e ateus virem temporariamente ao avesso. Nos parágrafos seguintes, tentarei brevemente desenvolver a justificativa que dei à minha colega naquela ocasião.

domingo, 23 de outubro de 2011

Ciência Espírita

Eles são cientistas. E eles acreditam em espíritos e reencarnação. Agora, estão usando o laboratório para provar que tudo isso não é apenas questão de fé. E dizem que estão conseguindo.

O excerto supracitado é a manchete da Super Interessante deste mês (outubro de 2011). Embora convidativa e exagerada, como costuma ser quase toda capa de revista, a matéria não se limita a relatar anedotas que dão um frio na barriga. Em contraste, os autores (Nogueira e Castro) tiveram o escrúpulo de contar o outro lado da história: o fato de que pesquisas sérias acerca do tema estão apenas começando, bem como, e principalmente, que não há dados empíricos que corroborem a tese de que corpo e mente (ou alma) são entidades de natureza ou substância distinta. Contudo, e se isso for verdade, o que dizer das experiências extracorpóreas que praticantes de meditação, pacientes de enfarte e sobreviventes de acidentes relatam?

sábado, 13 de agosto de 2011

Contingências, coincidências e superstições

Às vezes, andando pelo centro de Bom Despacho, minha cidade natal, avistava de longe um amigo ou conhecido. Quando nos aproximávamos, notava que a pessoa que avistara não era quem eu havia imaginado. Isso acontecia com certa regularidade, e o que estava por vir deixava-me com uma pulga atrás da orelha. Alguns minutos após o engano, eu acabava eventualmente encontrando meu conhecido. Impressionado, deixava-me seduzir pela ideia de que aquele equívoco se tratava de premonição (sinal de que algo vai acontecer) ou telepatia (sentir à distância). Era excitante imaginar que podemos ter superpoderes ou estranhas habilidades superdesenvolvidas. Era. Hoje, mais cético e instruído sobre o comportamento humano, tenho nas mangas explicações razoáveis para os eventos que nos convidam à superstição e à pseudociência.

domingo, 3 de julho de 2011

Teísmo e ateísmo: o dilema da naturalidade

ResearchBlogging.orgOs cientistas cognitivistas da religião têm alegado que a religiosidade é natural, isto é, que o conjunto de comportamentos que a caracteriza seria motivado por intuições psicológicas nucleares e naturalmente selecionadas (Bering, 2010). O ateísmo, e a irreligiosidade em geral, parece ser um problema para a chamada tese da naturalidade da religião (TNR). Barrett (2010): "Se a religiosidade é natural, o que explica a presença difundida do ateísmo e do agnosticismo, particularmente nos países europeus?" Temos, diante desse cenário, um impasse na concepção da postura religiosa (ateísmo, agnosticismo e teísmo) em termos de naturalidade.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Hipóteses (prematuras) acerca da Onda Ateísta

Na última terça-feira, dia 14 de junho, marquei presença no simpósio intitulado "Fronteiras entre a Psicologia, a Religião e a Espiritualidade". Esse evento, que aconteceu na Universidade FUMEC, contou com as apresentações de um hinduísta, um budista e um evangélico, cada qual propondo como seus valores, pressupostos e práticas podem contribuir para a Psicologia -- sobretudo na área da psicoterapia. Ao final, no espaço para perguntas, pronunciei-me acerca de uma questão que vive a me perseguir: "O que explica o aumento exponencial de ateus, que compunham um grupo minoritário há até bem pouco tempo, nos dias atuais? A propósito, quais seriam as implicações individuais e sociais do ceticismo em relação à religiosidade?"

sábado, 25 de dezembro de 2010

Natal, ceticismo e religiosidade

Antes de ontem (23 de dezembro), no tardar de uma confraternização, convocaram-me para participar de uma discussão informal sobre ceticismo e religiosidade. Uma das debatedoras, que defendia a hipótese da existência de Deus, acusava-nos -- os ateus --, em razão de "negarmos a existência de coisas simplesmente por não podermos senti-las", de prepotentes. Asseverou, ainda, que usamos apenas cerca de 10% do nosso cérebro, e que por isso seríamos ignorantes em relação a uma infinidade de eventos e entidades do mundo -- inclusive a respeito de Deus.