quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Da consciência, do vazio e da meditação

Hoje, durante nossa segunda aula de Psicologia Existencial, discutíamos sobre assuntos complicados como liberdade e consciência. Marco Portela, nosso professor, ensinava-nos que a consciência não é um recipiente, um depósito de conteúdos a respeito dos quais pensamos — mas as coisas mesmas a serem pensadas! A consciência é exatamente o que está sendo intencionado em nossa mente, ou o foco para o qual se volta a nossa atenção. Portela também salientou a impossibilidade de não se pensar em nada — afinal, "se estamos conscientes, necessariamente estamos conscientes de alguma coisa". Um pouco inquieta, uma colega argumentou que um dos propósitos da meditação é esvaziar a mente de todo e qualquer pensamento, levando-nos portanto ao encontro do nada. Lembrei-me naquele momento de algumas passagens de um dos livros de Antônio Damásio, O Mistério da Consciência. Segundo Damásio, o self, a sensação de sermos alguém, depende do mapeamento que o cérebro faz de diversas partes do corpo. Sem a representação mental do nosso corpo, e sem portanto a configuração de um "eu", não poderíamos sequer estar conscientes de algo. A meditação, nesse sentido, embora capaz de aquietar a torrente de pensamentos fervilhantes gerada pelo cérebro, não pode fazer com que nossa mente se esvazie completamente. Se assim fosse, deixaríamos de existir — ou, de um modo mais sublime, dormiríamos.

Não sei se fui suficientemente claro ao expor esses conhecimentos durante a discussão. Depois de um silêncio geral que durou uns poucos segundos, Portela retomou o assunto conforme sua própria linha de raciocínio, como que desconsiderando o meu argumento. Esse episódio reforçou minha sensação de que meus colegas e a maioria dos meus professores não gostam de neurociência (ou não a entendem). A propósito, estariam eles ainda sendo guiados por uma concepção dualista de homem?

Na verdade, e como salientou John Horgan em seu polêmico livro A Mente Desconhecida (2002), um dos temas mais complexos e controversos das ciências da mente é a consciência. Talvez por isso ele seja um dos meus favoritos, e lamento muito que tenhamos tão poucos recursos financeiros, tecnológicos e motivacionais para estudá-lo.

Inteligência Emocional: fascínio, equívocos e controvérsias

No final do ano passado, pouco antes de começar minhas férias, fui a uma livraria procurar algum exemplar que pudesse me distrair durante o verão. Talvez por causa do contato que tive com as obras de Antônio Damásio, fiquei muito atraído pelos livros que tratavam do tema "emoção". Entre alguns sedutores títulos que encontrei, optei por levar o Inteligência Emocional (1995), best-seller do meu xará Daniel Goleman.

Entre diversos achados científicos e inferências dispostos no livro de Goleman, concentrei-me mais em sua proposta de que existem duas mentes, dois cérebros — e dois tipos diferentes de inteligência: a racional e a emocional. Goleman propôs que o empenho de nossa inteligência emocional potencializaria nossa inteligência racional, e procurou demonstrar o quanto a qualidade de nossas relações pessoais e nossas conquistas profissionais e acadêmicas dependem efetivamente da forma como gerenciamos nossas emoções. Aptidões como empatia, autoconfiança e a capacidade de controlar impulsos e emoções perturbadoras seriam efeitos de um manejo emocional eficiente (de uma inteligência emocional bem desenvolvida). Goleman sugere que não há momento em que essas — e diversas outras — aptidões não podem ser de alguma forma reconfiguradas. A psicoterapia seria a ferramenta mais adequada nessa tarefa.