terça-feira, 1 de dezembro de 2009

O dualismo está caindo?

Freud aventou que o denominador comum de todas as revoluções científicas é a promoção do "destronamento humano".(1) Enquanto Copérnico tirou a Terra do centro do universo, Darwin mostrou-nos de quem somos parentes e o pai da Psicanálise, embora muito criticado, lançou luz sobre uma dimensão mental pela qual somos ininterruptamente "controlados": o inconsciente. Estaríamos, com o advento das neurociências, arquitetando o prelúdio de uma nova revolução? Estaria o materialismo (ou o fisicalismo) ameaçando o reinado dualista?

O paradigma dualista propõe que corpo e mente (ou alma) possuem naturezas distintas. O corpo: atributo físico no qual a alma está ancorada; depósito das paixões; perecível. A mente: atributo não-físico; entidade exclusiva do ser humano; imortal. Você e eu, enquanto entidades pessoais "fundadoras" da consciência, gozaríamos de uma existência perene. Filósofos como Platão e Descartes defenderam o dualismo apropriadamente, e suas premissas foram ratificadas e institucionalizadas pela Igreja.

Embora sedutor e politicamente conveniente, o paradigma dualista mostra-se dúbio. Por exemplo, não seriam os demais animais também dotados de alma ou mente uma vez sendo parentes dos seres humanos? Se a alma independe do corpo, por que disfunções encefálicas (fisiológicas e/ou neuroquímicas) alteram seu funcionamento? Além de não haver fundamento para as explicações típicas de como corpo e alma entram em contato (pelo "cordão de prata" ou pela "glândula pineal", por exemplo), parece não haver motivos para que uma "máquina biológica" não funcione sem um gerente ou executivo espiritual. Se o funcionamento de cachorros e minhocas (ou mesmo de computadores), que supostamente não possuem espírito, pode ser razoavelmente explicado pela ciência, por que o funcionamento humano não poderia? Compreender a natureza humana requer apelações metafísicas?

Um pouco de ciência contemporânea

A Psicologia Evolucionista postula que a mente evoluiu como qualquer outro órgão do corpo, sendo sua evolução correlata à evolução do encéfalo. Cada uma de suas funções, os módulos cognitivos ou psicológicos, teriam evoluído gradualmente, munindo-nos de "ferramentas cognitivas" com as quais resolvemos nossos problemas de sobrevivência. Teríamos um módulo (ou módulos) dedicado(s) à linguagem; a empatia e o reconhecimento de faces seriam funções desempenhadas por módulos específicos; e poderiam haver módulos empenhados em detectar trapaceiros, em formular objetivos e até mesmo em configurar a consciência. As vantagens adaptativas da mente modular decorrem de sua maior eficiência e rapidez para a resolução de problemas.(2) Como esses problemas dizem respeito à sobrevida de um organismo, pode-se dizer que a mente existe
para e com o corpo, isto é, que ela o serve e, ao mesmo tempo, o compõe.

"Quando contemplamos o mundo, não discernimos as muitas camadas de mecanismos que fundamentam nossa experiência visual unificada até que uma doença neurológica as disseque para nós" (Pinker, 1998). Pacientes que tiveram o sistema visual comprometido podem deixar de enxergar cores; podem também ficar incapacitados de reconhecer rostos ou objetos complexos; e podem, ainda, ver objetos mudarem de posição sem no entanto vê-los em movimento.(3) A peculiaridade de cada disfunção depende de qual região visual foi comprometida. O mesmo acontece com todas as outras funções mentais. Por exemplo, lesões nas regiões responsáveis por mapear a estrutura músculo-esquelética podem levar o paciente a sentir-se sem corpo, desencarnado; lesões no córtex pré-frontal podem debilitar o controle de impulsos, a tomada de decisão e a flexibilidade do pensamento; e lesões no hipocampo podem impossibilitar a criação de novos regristros (ou novas memórias). Esses dados corroboram a premissa de que a mente é modular, isto é, que ela é segmentada em departamentos cognitivos especializados em solucionar problemas específicos.


O casal John Tooby e Leda Cosmides (1995), citado por Gazzaniga e cols. (2006), aventou que a função evolutiva do encéfalo é regular a mente e o comportamento com base na informação derivada do corpo e do ambiente.(4) Mesmo os teóricos da linha dualista concordariam que os estados corporais — as emoções ou as
paixões, como eles os denominam — alteram o funcionamento da mente. Mas a maioria deles acredita que as emoções corrompem a racionalidade, bem como que a consciência independe de quaisquer elementos corporais. Não foi por acaso que Descartes chegou à sua célebre e primordial conclusão: "Penso, logo existo".

Mas constatações atuais vêm mostrando o contrário. Processos como a tomada de decisão, o planejamento e a consciência dependem imprescindivelmente das emoções.(4) Supostamente imune ao perecimento do corpo, a experiência consciente só ocorre em paralelo à produção de sentimentos, os representantes mentais dos estados corporais (Damásio, 2006; Gazzaniga, 2006; LeDoux, 2001).
Como afirmara Damásio (1996), o conceito "eu" depende dos estados do corpo na mesma medida em que o conceito "limão" depende de qualidades como forma, tamanho, cor, textura e gosto.(5) Não há consciência ou "eu" caso não haja informações corporais sendo processadas pelo encéfalo — sobretudo as emoções. O que pensar sobre os espíritos, então, essas entidades sobrenaturais desprovidas de corpo? Não seriam eles indecisos, desorganizados e embotados? Ou melhor: qual o sentido de se apregoar a existência de um ser sem corpo e sem consciência?

Do corpo advém as informações necessárias para refletirmos, tomarmos decisões, planejarmos e, antes disso, sentirmos que somos alguém. Em suma,
a consciência humana tem essa "forma" porque nosso encéfalo tem essa forma; daí que outros animais também podem ter consciência à sua própria maneira.(6)

Considerações finais

A perspectiva dualista parece ser razoavelmente sustentado pelo antropocentrismo. Mesmo que nosso aparato cognitivo permita-nos "dominar" a natureza, desenvolver redes de comunicação extremamente econômicas e refletir sobre nossa própria existência, essas qualidades não nos torna necessariamente superiores — tanto menos garantem nossa imortalidade. O hiato que separa corpo e mente vem sendo encurtado aos poucos, e o prelúdio de mais um destronamento costuma gerar angústia. Talvez seja esse o preço que pagamos pelo modo como somos conscientes.


Referências

(1) Ramachandran, V. S., & Blakeslee, S. (2004). Fantasmas no Cérebro: uma investigação dos mistérios da mente humana. Rio de Janeiro: Record.
(2) Souza, A. L. et al. (2006). "Uma Longa História". Psique: edição especial, 6, 8-13.
(3) Pinker, S. (1998). Como a Mente Funciona. São Paulo: Companhia das Letras.
(4) Gazzaniga, M. S. (2006) Neurociência Cognitiva: a biologia da mente. Porto Alegre: Artmed.
(5) Damásio, A. R. (1996) O Erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro humano. São Paulo: Companhia das Letras.
(6) LeDoux, J. (2001) O Cérebro Emocional: os misteriosos alicerces da vida emocional. Rio de Janeiro: Objetiva.

5 comentários:

  1. Excelentes considerações. De fato, ouso dizer que a concepção dualista está derrotada e descartada pela neurociência. O prevalecimento da concepção monista fisicalista é inevitável, na mesma linha da concepção evolucionista face a criacionista. Em suma, não há a mínima necessidade de se avocar a existência de qualquer tipo de entidade anatural (deuses, espíritos etc) para se explicar o que quer que seja, desde a origem do Universo ao funcionamento da mente, passando pela origem e diversificação da vida.
    "En passant" quero agradecer pela postagem da utilíssima bibliografia, da qual já li a obra de Damásio e de Pinker, mas vou já adquirir as demais para enriquecimento de minha biblioteca e do meu saber.

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  2. Da Wikipédia: "Maia, nas religiões da Índia, tem múltiplos significados, centrados no conceito de "ilusão". Maia é a principal divindade que manifesta, perpetua e governa a ilusão e o sonho de dualidade no Universo fenomenológico. [blá, blá blá inútil] O objetivo da iluminação é entender isso - mais precisamente, experimentar isso: ver intuitivamente que a distinção entre o self e o Universo é uma dicotomia falsa. A distinção entre consciência e matéria física, entre mente e corpo, é o resultado de uma perspectiva não-iluminada."

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  3. Existe muita sabedoria nas religiões/filosofias hindus, embora sejam formas arcaicas de descrever o mundo e os fenômenos naturais, e muitos atravessamentos supersticiosos (castas, reincarnação, etc).
    Mas a ideia de um "véu de Maia" me chama atenção pois a cultura a qual pertencemos, a educação que recebemos (ou que deixamos de receber), o ambiente familiar, nossas próprias disposições de temperamento e genética, e nossos próprios limites cognitivos e tecnológicos, agem como véus que dissimulam a realidade natural e dificultam a apreensão de verdades elementais. Ainda bem que existe o método científico. :D

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  4. Bacana, Cláudio! A propósito, os behavioristas também tratam a dicotomia organismo-ambiente como meramente didática...

    E é engraçado pensar que esse tipo de perspectiva, que aprendi um pouco quando li sobre o budismo, ajudou-me a superar minha angústia perante a finitude.

    Valeu pelo comentário. Um abraço.

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  5. Paulo Sérgio Brandão do Nascimento13 de junho de 2011 12:57

    A idéia materialista colocada pelo sro Wolf Elder pode esta redondamente incorreta, pois se considerar a Mecânica Quântica, em particular o processo do Colapso da Função de Onda, existe um Paradoxo Inevitável na Visão Mecanicista, que torna remota a possibilidade de entender a consciência como resultado da Função Física Cerebral. Isto deixa a Neurociência muito longe de explicar coisas como a Consciência. Este paradoxo esta ligado a algo conhecido como Sequencia de Von Neunman (Matemático). O problema é que o Famoso Colapso Quântico da Função de Onda, não pode ser compreendido como inserido no próprio processo Físico Quântico, porque isto geraria uma auto-referência inevitável e um ciclo ilógico, conhecido como Hierarquia Intrelaçada. A Hierarquia intrelaçada só pode ser quebrada por uma descontinuidade. Este ciclo só pode ser quebrado (ter uma descontinuidade) se considerarmos uma saída do sistema físico em um domínio transcendente (ao que é físico) que seja responsável pelo Colapso da Função de Onda e que resulte uma medição bem definida de um sistema físico (conjunto de magnitudes físicas observadas). Como o cérebro é físico, formado de átomos organizados, e deste modo regido pela Mecânica Quântica, fica difícil tentar explicar a consciência como fenômeno do cérebro, pois em ultima análise, a medição física (responsável pelo Colapso das Funções de Onda que descreve o sistema mecânico (conjunto de átomos)) é, em ultima instância, concluído pela consciência que lê e interpreta pela ultima vez o resultado da medição experimental da natureza, em qualquer experiência física concreta. A Neurociência precisa, deste modo, considerar os processos quânticos subjacentes a estrutura mais fina do cérebro, no nível molecular, neuro-químico. As próprias experiências físicas vem demonstrando que paradoxos como o EPR (Einstein, Podolsky e Rosen) acontecem de fato na natureza, mostrando algum tipo de existência alem da matéria do espaço e do tempo.

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