quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Quando o ateu orou



No decorrer de uma festa, Amanda e eu discutíamos religião. Como acontece quando o assunto é futebol ou política, ninguém queria dar o braço a torcer. Em um momento propício, contudo, decidi fazer uma revelação: “Depois que me tornei ateu, e isso deve fazer uns cinco ou seis anos, houve um momento singular em que me pus a orar. Eram dias difíceis, cheios de tristeza, angústia e desesperança. Não imaginei nada ou ninguém a recorrer… a não ser Deus.” Ao ouvir isso, Amanda imediatamente esbravejou: “É só o negócio apertar, e então vocês mudam prontamente de ideia! No fundo, no fundo, os ateus crêem em Deus!”.

Tal como acontece com os traços de personalidade e a inteligência, o que nos define ateus, agnósticos ou religiosos é essencialmente a frequência com que nos comportamos de formas tais ou quais. Essa frequência pode oscilar à medida que variam as condições que as mantém, e uma variação razoavelmente aguda ou estável pode, com efeito, fazer com que religiosos e ateus virem temporariamente ao avesso. Nos parágrafos seguintes, tentarei brevemente desenvolver a justificativa que dei à minha colega naquela ocasião.

sábado, 5 de novembro de 2011

Inteligência: capacidade de ser feliz?

Parece haver um consenso de que inteligência é um dos construtos mais polêmicos da psicologia. Mas é também um dos mais caros, sendo eventualmente considerado como a dimensão psicológica mais estudada e estabelecida (Flores-Mendoza, 2010). No entanto, se uma miríade de estudos concebe status especial à sua medida, então calculada e nomeada enquanto fator g ou como QI, outros tantos levantam uma série de críticas. A mais popular delas é a de que não existe a inteligência, mas as inteligências, sendo Daniel Goleman comum e prontamente lembrado por cunhar o termo inteligência emocional. Howard Gardner, um pouco menos modesto, levanta a bandeira das inteligências múltiplas, e o faz ao postular que cada habilidade específica, como os raciocínios numérico, espacial e interpessoal, referem-se a inteligências autônomas, isoladas. Tendo outrora exposto uma alternativa a esse tipo de tese, quero agora desenvolver algumas considerações sobre uma proposição curiosa: a de que a definição de inteligência deve estar vinculada à capacidade de ser feliz.